Multitarefa ou Foco? O Que a Ciência Diz Sobre Fazer Uma Coisa de Cada Vez

Fazer vĂĄrias coisas ao mesmo tempo parece produtivo, mas a troca constante de tarefas pode aumentar o tempo necessĂĄrio para concluĂ­-las e dificultar a concentração. Entenda o que a ciĂȘncia diz sobre multitarefa, foco e troca de contexto.

Existe uma cena bastante comum no trabalho moderno: e-mail aberto, aplicativo de mensagens recebendo notificaçÔes, vårias abas do navegador abertas e, ao mesmo tempo, uma tarefa importante esperando para ser concluída.

Durante muito tempo, essa capacidade de lidar com vĂĄrias coisas simultaneamente foi tratada como uma caracterĂ­stica de profissionais produtivos. A ideia parece lĂłgica: se consigo cuidar de vĂĄrias tarefas ao mesmo tempo, consigo fazer mais em menos tempo.

O problema é que, em muitas situaçÔes, não estamos realmente executando vårias atividades complexas ao mesmo tempo. Estamos alternando rapidamente nossa atenção entre diferentes tarefas.

E essa alternùncia possui um custo. Pesquisas sobre troca de tarefas, conhecida como task switching, mostram que mudar de uma atividade para outra pode consumir tempo e exigir um novo esforço mental para recuperar o contexto da tarefa anterior.

Isso não significa que toda multitarefa seja ruim ou que seja impossível executar atividades simultaneamente. O impacto depende do tipo de tarefa, da complexidade envolvida e do quanto aquela atividade exige atenção contínua.

Por isso, em vez de simplesmente dizer que "multitarefa Ă© ruim", vale entender quando fazer uma coisa de cada vez realmente pode ajudar.

1. O que realmente acontece quando vocĂȘ tenta fazer vĂĄrias coisas

Quando falamos em multitarefa, normalmente imaginamos o cérebro executando diferentes atividades complexas simultaneamente.

Na prĂĄtica, muitas situaçÔes chamadas de multitarefa sĂŁo, na verdade, uma sequĂȘncia de interrupçÔes e mudanças de atenção.

Imagine um programador trabalhando em um problema. Ele começa analisando um erro no código, recebe uma mensagem, interrompe o raciocínio para responder, verifica rapidamente o e-mail e depois retorna ao código.

Ele nĂŁo deixou simplesmente uma tarefa "pausada" como se fosse um vĂ­deo. Ao voltar, precisa lembrar o que estava fazendo, qual era o problema, quais hipĂłteses jĂĄ havia considerado e qual seria o prĂłximo passo.

A American Psychological Association (APA) explica que multitarefa pode envolver tentar executar duas tarefas simultaneamente, alternar entre tarefas ou realizar diferentes atividades em rĂĄpida sucessĂŁo. Os experimentos de troca de tarefas mostram que essa alternĂąncia pode gerar custos de desempenho.

Pesquisas realizadas por Joshua Rubinstein, Jeffrey Evans e David Meyer também encontraram perda de tempo quando participantes precisavam alternar entre diferentes tarefas. O custo tendia a aumentar quando as atividades eram mais complexas ou menos familiares.

Isso ajuda a explicar por que responder uma mensagem enquanto espera um arquivo carregar Ă© muito diferente de tentar resolver um problema complexo enquanto participa de uma reuniĂŁo.

2. O "switch tax": o custo invisĂ­vel da troca de tarefas

Um dos conceitos mais interessantes para entender esse problema é o switching cost, também chamado de custo de troca ou "switch tax".

A APA explica esse processo utilizando duas etapas. A primeira é o "goal shifting", quando decidimos mudar de um objetivo para outro. A segunda é a "rule activation", quando precisamos ativar mentalmente as regras e informaçÔes necessårias para realizar a nova tarefa.

Em uma Ășnica troca, esse custo pode parecer insignificante. O problema aparece quando a alternĂąncia acontece repetidamente durante o dia.

Pense em alguém que interrompe uma tarefa dez, vinte ou trinta vezes. Mesmo que cada interrupção seja curta, o trabalho não envolve apenas o tempo gasto na interrupção. Existe também o esforço necessårio para retomar o contexto da atividade original.

A APA tambĂ©m apresenta estimativas associadas aos bloqueios mentais provocados pela troca entre tarefas. Esses nĂșmeros, porĂ©m, nĂŁo devem ser interpretados como uma regra universal segundo a qual qualquer pessoa perde exatamente 40% da produtividade ao fazer multitarefa.

O ponto mais importante Ă© outro: as trocas possuem um custo e esse custo pode se acumular.

Quanto mais complexa for a atividade, maior tende a ser a importĂąncia de preservar o contexto necessĂĄrio para realizĂĄ-la.

3. Por que o foco pode ser mais eficiente em tarefas complexas

Fazer uma coisa de cada vez não significa necessariamente trabalhar mais devagar. Em determinadas situaçÔes, significa reduzir as interrupçÔes que dificultam a continuidade do raciocínio.

Isso é especialmente relevante em atividades que dependem de concentração, memória de trabalho e anålise de informaçÔes.

Alguns exemplos sĂŁo:

  • Programar e investigar bugs
  • Escrever textos longos
  • Estudar um assunto complexo
  • Analisar dados
  • Planejar projetos
  • Tomar decisĂ”es importantes
  • Resolver problemas que exigem vĂĄrias etapas de raciocĂ­nio

Em situaçÔes assim, uma interrupção pode fazer com que a pessoa precise reconstruir mentalmente o que estava fazendo antes de conseguir continuar.

É justamente por isso que o foco pode ser mais Ăștil do que tentar manter vĂĄrias atividades abertas ao mesmo tempo.

O objetivo nĂŁo Ă© trabalhar durante horas sem levantar da cadeira ou ignorar todas as outras demandas. É simplesmente proteger perĂ­odos de atenção quando a tarefa exige concentração contĂ­nua.

4. O que pesquisas com profissionais de alta complexidade podem ensinar

Um estudo publicado em Nature Human Behaviour em 2026 analisou um cenĂĄrio muito diferente do escritĂłrio: cirurgias de transplante de ĂłrgĂŁos.

Os pesquisadores analisaram mais de 316 mil transplantes realizados nos Estados Unidos entre 2007 e 2019 e investigaram o que acontecia quando cirurgiÔes alternavam entre diferentes tipos de órgãos em procedimentos consecutivos.

O estudo encontrou uma associação entre essas mudanças de contexto e um aumento na mortalidade dos pacientes após o transplante. Quando os cirurgiÔes alternavam entre diferentes tipos de órgãos, a mortalidade em um ano aumentava em aproximadamente 0,66 ponto percentual, equivalente a um aumento relativo de 14,8%.

É importante, porĂ©m, nĂŁo tirar uma conclusĂŁo exagerada desse resultado. Uma cirurgia de transplante obviamente nĂŁo Ă© equivalente a responder e-mails, programar ou escrever um relatĂłrio.

O que esse estudo ajuda a demonstrar Ă© algo mais especĂ­fico: profissionais experientes tambĂ©m podem sofrer consequĂȘncias quando precisam alternar entre contextos de trabalho complexos.

Para outras profissĂ”es, a aplicação nĂŁo Ă© copiar a porcentagem encontrada no estudo. É perceber que, quando uma atividade exige muita concentração, preservar o contexto pode ser importante para manter a qualidade do trabalho.

5. Quando fazer uma coisa de cada vez faz mais sentido

NĂŁo existe necessidade de transformar o single-tasking em uma regra absoluta para toda atividade do dia.

Ele faz mais sentido quando a tarefa exige concentração e quando a troca constante de contexto pode prejudicar o raciocínio.

Programação

Investigar um bug ou entender um sistema complexo exige manter vårias informaçÔes em mente. Interromper esse processo constantemente pode tornar a retomada mais difícil.

Escrita

Produzir um artigo, documentação ou relatório também depende de continuidade. Muitas interrupçÔes podem quebrar a linha de raciocínio e aumentar o tempo necessårio para terminar o texto.

Estudo

Ao aprender um assunto novo, é necessårio construir conexÔes entre diferentes informaçÔes. Interromper o estudo constantemente pode dificultar esse processo.

Tomada de decisĂŁo

Algumas decisÔes também merecem um período de atenção sem interrupçÔes. Não significa passar horas pensando, mas criar espaço suficiente para analisar as informaçÔes antes de mudar para outra atividade.

6. Quando a multitarefa pode nĂŁo ser um problema

Existe uma ressalva importante nessa discussĂŁo: nem toda multitarefa Ă© necessariamente prejudicial.

Algumas atividades sĂŁo simples, automĂĄticas ou suficientemente conhecidas para que possam ser combinadas sem um grande impacto.

Ouvir mĂșsica enquanto realiza uma tarefa repetitiva, caminhar enquanto conversa ou acompanhar uma atividade simples enquanto espera outra terminar sĂŁo situaçÔes diferentes de tentar escrever cĂłdigo enquanto participa de uma reuniĂŁo importante.

As prĂłprias pesquisas sobre multitarefa mostram que o impacto pode variar de acordo com as caracterĂ­sticas das atividades e com o nĂ­vel de familiaridade que a pessoa possui com elas.

Portanto, a questĂŁo nĂŁo deveria ser simplesmente "multitarefa Ă© boa ou ruim?". A pergunta mais Ăștil Ă©:

Essa tarefa realmente permite dividir minha atenção sem prejudicar o resultado?

Se a resposta for nĂŁo, provavelmente vale a pena criar um perĂ­odo de foco.

7. Como reduzir a troca de contexto no dia a dia

VocĂȘ nĂŁo precisa transformar sua rotina em um sistema rĂ­gido de produtividade. Algumas mudanças simples jĂĄ podem diminuir a quantidade de interrupçÔes.

Desative notificaçÔes desnecessårias

Mensagens, e-mails e notificaçÔes de aplicativos são fontes frequentes de interrupção. Quando estiver realizando uma tarefa que exige concentração, vale silenciar aquilo que não precisa de resposta imediata.

Agrupe tarefas semelhantes

Em vez de alternar constantemente entre diferentes tipos de atividade, vocĂȘ pode separar perĂ­odos para tarefas semelhantes. Por exemplo, responder mensagens em determinados momentos e reservar outro perĂ­odo para tarefas que exigem concentração.

Use blocos de tempo

O timeboxing consiste em reservar um período específico para determinada tarefa. Durante esse intervalo, o objetivo é manter a atenção naquela atividade em vez de trocar de contexto a cada nova solicitação.

Anote interrupçÔes em vez de segui-las imediatamente

Se surgir uma nova tarefa enquanto vocĂȘ estĂĄ concentrado, anote-a. Isso ajuda a evitar que uma nova demanda interrompa automaticamente aquilo que jĂĄ estava sendo feito.

Faça uma transição consciente

Quando precisar mudar de atividade, termine o ponto em que estĂĄ, registre o que falta fazer e sĂł entĂŁo passe para a prĂłxima tarefa. Esse pequeno hĂĄbito pode facilitar bastante a retomada posterior.

8. O problema nĂŁo Ă© ter vĂĄrias tarefas, mas trocar de contexto o tempo todo

É importante fazer uma distinção: ter várias tarefas não significa necessariamente trabalhar em multitarefa.

Um profissional pode ter dez tarefas pendentes e ainda trabalhar em uma delas por vez. O problema começa quando essas tarefas competem constantemente pela atenção.

Existe uma diferença enorme entre:

  • Ter vĂĄrias tarefas planejadas para o dia.
  • Alternar entre vĂĄrias tarefas a cada poucos minutos.
  • Reservar perĂ­odos especĂ­ficos para diferentes tipos de atividade.
  • Interromper qualquer tarefa sempre que uma nova demanda aparecer.

A primeira situação Ă© simplesmente organização. A segunda pode transformar o dia inteiro em uma sequĂȘncia de pequenas interrupçÔes.

Portanto, fazer uma coisa de cada vez não significa ter apenas uma tarefa na vida. Significa dar atenção suficiente para uma atividade antes de decidir conscientemente mudar para outra.

9. E onde a inteligĂȘncia artificial entra nessa histĂłria?

A discussĂŁo sobre multitarefa ganhou uma nova dimensĂŁo com o crescimento das ferramentas de inteligĂȘncia artificial.

Hoje, uma pessoa pode utilizar IA para resumir mensagens, organizar informaçÔes, gerar rascunhos, analisar dados e automatizar tarefas repetitivas. Isso pode reduzir parte do trabalho operacional que antes exigia atenção humana constante.

Mas isso nĂŁo significa que o ser humano deixou de precisar de foco.

Pelo contrårio: quanto mais ferramentas assumem tarefas operacionais, mais importante pode se tornar saber definir o problema, estabelecer prioridades, avaliar resultados e tomar decisÔes.

A IA pode lidar com vĂĄrias tarefas em sequĂȘncia, mas alguĂ©m ainda precisa determinar o que realmente importa, verificar se o resultado estĂĄ correto e decidir qual deve ser o prĂłximo passo.

Portanto, talvez a discussão do futuro não seja simplesmente sobre humanos fazendo multitarefa contra måquinas fazendo multitarefa. A questão pode ser como utilizar a tecnologia para reduzir distraçÔes e liberar atenção para atividades que exigem julgamento humano.

10. ConclusĂŁo: foco nĂŁo significa fazer apenas uma coisa por dia

A ideia de fazer uma coisa de cada vez nĂŁo precisa ser tratada como uma guerra contra a multitarefa.

A evidĂȘncia cientĂ­fica Ă© mais interessante do que isso. Pesquisas sobre troca de tarefas mostram que alternar entre atividades possui custos, especialmente quando as tarefas sĂŁo complexas ou pouco familiares.

Isso não significa que toda multitarefa seja ruim, nem que exista uma porcentagem universal de produtividade perdida sempre que alguém muda de atividade.

Significa apenas que nossa atenção possui limites e que podemos trabalhar melhor quando evitamos interrupçÔes desnecessårias durante atividades que exigem concentração.

No fim das contas, fazer uma coisa de cada vez nĂŁo significa trabalhar menos. Significa escolher quando vale a pena concentrar toda a atenção em uma Ășnica atividade.

Talvez a pergunta mais Ăștil para começar amanhĂŁ seja simples:

Quantas vezes durante o meu dia eu realmente preciso trocar de contexto?

Se vocĂȘ perceber que estĂĄ interrompendo tarefas importantes apenas porque uma notificação apareceu, talvez o problema nĂŁo seja falta de produtividade. Talvez seja excesso de interrupçÔes.

VocĂȘ consegue trabalhar com mais foco?

No Nerd Cult, acreditamos que produtividade não significa simplesmente fazer mais coisas. Significa encontrar formas melhores de usar nosso tempo, atenção e conhecimento.

Se este artigo ajudou vocĂȘ a repensar sua forma de trabalhar, compartilhe com alguĂ©m que vive pulando de uma tarefa para outra durante o dia.

Nerd Cult — onde o cĂłdigo encontra o rock, o cinema e a cultura geek. Porque ser nerd Ă© transformar o medo em curiosidade, e a curiosidade em poder.

#Multitarefa #Produtividade #Foco #GestĂŁoDeTempo #NerdCult

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ComentĂĄrios (1)

Carla 10/08/2026 07:22

Cuidar da saúde mental.