VocĂȘ jĂĄ teve a sensação de que nĂŁo era bom o bastante para estar trabalhando com tecnologia, mesmo depois de conseguir uma vaga, entregar projetos e resolver problemas que antes pareciam impossĂveis?
Eu jå tive essa sensação muitas vezes.
E o mais curioso é que ela ainda aparece de vez em quando, mesmo depois de anos trabalhando com programação e de jå ter participado de projetos que continuam ativos e funcionando dentro da empresa.
Neste artigo, quero contar uma parte da minha trajetĂłria, desde quando comecei a estudar programação aos 35 anos atĂ© conseguir meu primeiro emprego prĂłximo dos 43, e falar sobre algo que descobri durante esse caminho: a SĂndrome do Impostor pode nĂŁo desaparecer completamente, mas podemos aprender a conviver com ela e nĂŁo deixar que ela nos impeça de evoluir.
O que Ă© a SĂndrome do Impostor?
A SĂndrome do Impostor, tambĂ©m chamada na literatura de fenĂŽmeno do impostor, estĂĄ relacionada Ă dificuldade que algumas pessoas tĂȘm de reconhecer as prĂłprias conquistas.
Mesmo quando existem resultados concretos, a pessoa pode acreditar que não é tão competente quanto os outros imaginam e atribuir suas conquistas à sorte, ajuda de outras pessoas ou simplesmente ao fato de ter se esforçado muito.
E isso pode ser especialmente complicado na ĂĄrea de tecnologia.
Afinal, estamos em uma ĂĄrea na qual sempre existe alguma coisa nova para aprender. Uma linguagem nova aparece, um framework muda, uma ferramenta ganha espaço, uma tecnologia que vocĂȘ nunca utilizou aparece em uma demanda e, de repente, vocĂȘ começa a comparar seu conhecimento com o de outras pessoas.
O resultado pode ser aquela velha sensação:
"SerĂĄ que eu realmente sou bom o bastante para estar aqui?"
Comecei a estudar programação aos 35 anos
Essa parte Ă© importante porque estou falando da minha prĂłpria experiĂȘncia.
Eu comecei a estudar programação jå mais velho, por volta dos 35 anos, e só fui conseguir meu primeiro emprego próximo aos 43.
Durante esse processo, ouvi muitas vezes que eu estava velho para entrar na årea, que o mercado preferia pessoas mais jovens e que eu teria que competir com gente que começou a programar muito antes.
O problema Ă© que esse tipo de comentĂĄrio nĂŁo fica simplesmente do lado de fora.
Aos poucos, ele começa a entrar na nossa cabeça.
VocĂȘ começa a acreditar que talvez realmente esteja atrasado. Que talvez nĂŁo consiga acompanhar. Que talvez nĂŁo seja bom o suficiente.
E essa crença acaba se tornando uma barreira tão grande quanto qualquer dificuldade técnica.
Finalmente consegui o emprego, mas o medo continuou
Quando finalmente consegui a oportunidade, eu deveria simplesmente comemorar.
Mas a sensação inicial foi outra.
"O que eu estou fazendo aqui?"
Existia um medo enorme de nĂŁo conseguir acompanhar as demandas, de fazer alguma coisa errada e de descobrirem que eu nĂŁo era tĂŁo bom quanto imaginavam.
Esse medo chegava a me travar até para pegar alguns freelas. Eu pensava nos prazos, na possibilidade de não conseguir entregar e em tudo que poderia dar errado.
Hoje consigo olhar para aquela época de uma maneira diferente, mas naquele momento a sensação era bastante real.
Eu tinha conseguido entrar na ĂĄrea, mas ainda precisava convencer a mim mesmo de que realmente pertencia Ă quele ambiente.
Meu primeiro trabalho não foi programação pura
Outra coisa que aprendi foi que a carreira nem sempre começa exatamente da maneira que imaginamos.
No começo na empresa, nem mexi diretamente com programação pura. Fui trabalhar com suporte de RPA e também com banco de dados, inclusive participando de um processo de migração de Oracle para SQL Server.
E, naquele momento, eu queria mostrar serviço.
Se aparecia uma oportunidade para criar dashboards, eu queria ajudar.
Se aparecia alguma coisa relacionada a BI, eu tentava entender.
Tableau? Eu também queria aprender.
Talvez parte disso fosse simplesmente vontade de aprender. Mas também existia uma necessidade de mostrar para mim mesmo e para as pessoas ao meu redor que eu merecia estar naquele ambiente.
Eu queria me sentir pertencente.
A prova de fogo: criar uma API dentro do SQL Server
Quando finalmente fui para a programação de verdade, veio uma das situaçÔes que mais marcou esse perĂodo.
Meu chefe pediu para eu criar uma API que fazia uma requisição diretamente dentro do SQL Server.
E naquela Ă©poca eu nĂŁo tinha inteligĂȘncia artificial para simplesmente abrir uma conversa e perguntar como fazer.
Era pesquisa na raça.
- Google;
- documentação;
- fĂłruns;
- Stack Overflow;
- exemplos de cĂłdigo;
- muita tentativa e erro.
Eu precisava encontrar informaçÔes espalhadas pela internet, entender a lógica por trås dos exemplos e adaptar aquilo para o problema que tinha nas mãos.
E foi justamente nesse momento que percebi que todo aquele estudo pesado que tinha feito antes estava começando a fazer diferença.
Eu nĂŁo sabia tudo.
Mas tinha uma base que me permitia pesquisar, entender, testar e chegar a uma solução.
A verdadeira habilidade de um desenvolvedor nĂŁo Ă© saber tudo
Essa experiĂȘncia mudou bastante a minha maneira de enxergar programação.
Durante muito tempo, principalmente quando estamos começando, existe a impressão de que um bom programador é aquele que sabe tudo de cabeça.
Sabe todas as funçÔes. Conhece todas as tecnologias. Não precisa pesquisar. Resolve qualquer problema rapidamente.
SĂł que a realidade Ă© bem diferente.
Programar também significa pesquisar, interpretar documentação, analisar erros, testar possibilidades e aprender aquilo que ainda não sabemos.
Hoje, com inteligĂȘncia artificial, temos ferramentas que aceleram bastante esse processo. Mas a necessidade de entender o problema e avaliar se uma solução realmente funciona continua existindo.
VocĂȘ nĂŁo precisa saber tudo. Precisa saber como encontrar o que ainda nĂŁo sabe.
O mais estranho é que os resultados começam a aparecer
Existe uma coisa curiosa na SĂndrome do Impostor.
Com o passar dos anos, vocĂȘ começa a acumular provas de que consegue fazer aquilo.
Projetos sĂŁo entregues. Sistemas entram em produção. Problemas difĂceis sĂŁo resolvidos. Novas tecnologias sĂŁo aprendidas. Bugs aparecem e sĂŁo corrigidos.
E, no meu caso, jĂĄ existem muitos projetos que desenvolvi ou dos quais participei que continuam ativos e funcionando dentro da empresa.
Se eu olhar para os fatos, tenho bastante coisa concreta mostrando que consigo executar meu trabalho.
Mesmo assim, vira e mexe aquela sensação aparece novamente.
"SerĂĄ que eu realmente sou bom nisso?"
E talvez essa seja a parte mais difĂcil de explicar para quem nunca passou por isso.
A SĂndrome do Impostor tambĂ©m aparece em quem jĂĄ tem experiĂȘncia
A pesquisa sobre o fenÎmeno do impostor mostra que ele não estå restrito a pessoas que estão começando a carreira.
Uma revisĂŁo sistemĂĄtica publicada em 2020 analisou 62 estudos e mais de 14 mil participantes e encontrou relatos do fenĂŽmeno em diferentes grupos e fases da vida profissional.
A mesma pesquisa tambĂ©m mostra que nĂŁo existe uma porcentagem Ășnica e simples que possa ser aplicada a todo mundo, porque os estudos utilizam diferentes instrumentos e critĂ©rios para medir o fenĂŽmeno.
Isso Ă© importante porque existe uma diferença entre dizer que a SĂndrome do Impostor Ă© uma experiĂȘncia estudada e sair afirmando que determinada porcentagem de todos os profissionais de tecnologia sofre com ela.
O que posso afirmar com segurança Ă© aquilo que conheço diretamente: no meu caso, a sensação continuou aparecendo mesmo depois de anos de experiĂȘncia e de resultados concretos.
E talvez isso aconteça com mais profissionais do que imaginamos.
Não confunda uma sensação com um fato
Essa foi uma das coisas mais importantes que aprendi.
Sentir que vocĂȘ nĂŁo Ă© bom o bastante nĂŁo significa que vocĂȘ realmente nĂŁo seja bom o bastante.
A sensação é verdadeira. O medo existe. A insegurança existe.
Mas a conclusĂŁo que tiramos desses sentimentos pode estar errada.
Se apareceu um problema que eu nunca resolvi antes, isso nĂŁo significa que sou um programador ruim. Significa que encontrei um problema novo.
Se precisei pesquisar uma solução, isso não significa que não sei programar. Significa que encontrei algo que ainda não conhecia.
E se outra pessoa sabe mais do que eu sobre determinada tecnologia, isso tambĂ©m nĂŁo significa que eu seja um profissional pior. Significa apenas que, naquele assunto especĂfico, naquele momento, ela sabe mais.
Pare de comparar sua trajetĂłria com a dos outros
A årea de tecnologia facilita muito esse tipo de comparação.
VocĂȘ abre o LinkedIn e encontra alguĂ©m falando sobre uma tecnologia que nunca utilizou. Entra no GitHub e encontra um projeto enorme. Assiste a um vĂdeo e vĂȘ alguĂ©m programando como se soubesse tudo de cabeça.
Depois olha para sua prĂłpria trajetĂłria e pensa que estĂĄ muito atrĂĄs.
Só que essa comparação é injusta.
VocĂȘ estĂĄ comparando todas as suas dificuldades, dĂșvidas e limitaçÔes com aquilo que outra pessoa decidiu mostrar.
Em vez disso, tente comparar vocĂȘ com quem era alguns anos atrĂĄs.
- O que vocĂȘ nĂŁo sabia naquela Ă©poca?
- Quais problemas vocĂȘ nĂŁo conseguia resolver?
- Quais tecnologias vocĂȘ aprendeu?
- Quais projetos vocĂȘ jĂĄ entregou?
- Quais situaçÔes pareciam impossĂveis e hoje fazem parte da sua experiĂȘncia?
Essa comparação costuma ser muito mais justa.
O lado positivo que encontrei nessa cobrança
NĂŁo acho que a SĂndrome do Impostor seja algo bom que devemos procurar manter.
Mas, olhando para minha prĂłpria trajetĂłria, existe um lado que acabou sendo Ăștil.
A insegurança me fez estudar. Me fez pesquisar. Me fez aceitar desafios. Me fez querer melhorar.
Muitas vezes aquela sensação de "eu preciso aprender mais" acabou me empurrando para frente.
O problema começa quando essa cobrança deixa de ser combustĂvel e passa a ser um freio.
Se ela faz vocĂȘ estudar e evoluir, existe uma consequĂȘncia positiva.
Mas se ela faz vocĂȘ deixar de aceitar oportunidades porque acredita que nĂŁo Ă© capaz, aĂ Ă© preciso tomar cuidado.
Algumas coisas que me ajudam a lidar com isso
Não existe uma fórmula que funcione da mesma maneira para todo mundo, mas algumas atitudes podem ajudar a colocar essa sensação em perspectiva.
- Olhe para o que vocĂȘ jĂĄ entregou: mantenha registro dos projetos, problemas e desafios que conseguiu resolver.
- NĂŁo transforme desconhecimento em incapacidade: nĂŁo saber determinada tecnologia Ă© diferente de nĂŁo conseguir aprender.
- Evite comparaçÔes injustas: a trajetória profissional de outra pessoa não é uma régua adequada para medir a sua.
- Aprenda a pesquisar: documentação, fóruns, exemplos, livros, cursos e ferramentas de IA fazem parte do trabalho de desenvolvimento.
- Aceite que novos desafios vĂŁo gerar insegurança: sentir um pouco de medo diante de algo novo nĂŁo significa que vocĂȘ nĂŁo esteja preparado para tentar.
- Reconheça sua evolução: aquilo que hoje parece simples provavelmente jĂĄ foi um problema difĂcil algum dia.
Talvez ela nunca desapareça completamente
Essa Ă© uma conclusĂŁo que tirei olhando para minha prĂłpria experiĂȘncia.
Eu gostaria de dizer que depois de alguns anos trabalhando, entregando projetos e acumulando experiĂȘncia, a SĂndrome do Impostor simplesmente desaparece.
Mas nĂŁo foi isso que aconteceu comigo.
Vira e mexe aquela sensação aparece novamente.
A diferença é que hoje eu consigo enxergar essa sensação de outra maneira.
Quando aparece um problema novo, eu jĂĄ sei que provavelmente vou precisar estudar.
Quando encontro uma tecnologia que não conheço, sei que não existe motivo para esperar que eu domine aquilo imediatamente.
E quando aquela voz começa a dizer que talvez eu não seja bom o bastante, consigo lembrar de tudo aquilo que jå fiz.
Projetos reais. Sistemas funcionando. Problemas resolvidos. Anos de aprendizado.
Tudo isso continua existindo, mesmo quando a insegurança aparece.
ConclusĂŁo
Começar a programar aos 35 anos e conseguir meu primeiro emprego próximo dos 43 foi uma das mudanças mais importantes da minha vida profissional.
NĂŁo foi um caminho simples.
Tive que estudar muito, lidar com comentĂĄrios sobre idade, enfrentar o medo de nĂŁo conseguir e aprender tecnologias que inicialmente pareciam muito acima do meu nĂvel.
E mesmo depois de tudo isso, a SĂndrome do Impostor ainda aparece de vez em quando.
SĂł que existe uma diferença enorme entre sentir medo e deixar que o medo decida por vocĂȘ.
Hoje, quando aquela sensação aparece, tento olhar para os fatos.
Eu jĂĄ consegui. JĂĄ aprendi. JĂĄ errei. JĂĄ resolvi problemas que nĂŁo sabia resolver. JĂĄ entreguei projetos que continuam funcionando.
E ainda vou encontrar muitas coisas que nĂŁo sei fazer.
Isso nĂŁo significa que sou uma fraude. Significa que ainda estou aprendendo.
Talvez a SĂndrome do Impostor nĂŁo desapareça completamente. Mas ela pode perder força. E, com o tempo, vocĂȘ aprende que nĂŁo precisa esperar se sentir totalmente confiante para continuar avançando.
Se vocĂȘ estĂĄ passando por isso agora, talvez seja apenas uma fase. Continue estudando, continue tentando e, principalmente, nĂŁo deixe que uma sensação momentĂąnea apague tudo aquilo que vocĂȘ jĂĄ conseguiu construir.
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